Como falar com o seu cão

Estudos realizados ao longo das duas últimas décadas mostram que os cães são capazes de compreender a comunicação humana, como nenhuma outra espécie. Num artigo bem documentado a investigadora Juliane Kaminski dá-nos pistas sobre as razões desta ligação tão especial.

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Os cães são especiais. Qualquer um que partilhe a vida com um deles sabe como é verdade. Além disso, a maioria dos donos tem a sensação de que o seu peludo entende tudo o que lhes dizem e os movimentos que fazem. Investigações realizadas nas últimas duas décadas mostram que os cães são capazes de compreender a comunicação humana como nenhuma outra espécie. Agora, um novo estudo confirma que se quiser treinar um cachorrinho, para que tenha a máxima possibilidade de entender o que lhe dizemos, deve falar com ele de uma maneira específica.

A investigação já forneceu uma boa quantidade de provas de que o modo como comunicamos com os cães é diferente da forma como o fazemos com os humanos. Quando falamos com os cães usamos o que se denomina “linguagem direcionada aos cães”. Isso significa que mudamos a estrutura das frases, encurtando-as e simplificando-as. Também costumamos falar num tom mais agudo. Fazemos o mesmo quando não temos a certeza de que nos estão a compreender ou quando nos dirigimos a crianças muito pequeninas.

Um novo estudo descobriu que, quando falamos com um cachorrinho, usamos um tom ainda mais agudo, e que essa tática realmente ajuda os animais a prestar mais atenção. O estudo, publicado na revista Proceedings of the Royal Society B, mostrou que, ao falar com os cachorrinhos usando linguagem dirigida a cães, estes respondem melhor ao instrutor humano do que quando é usada linguagem normal.

Para provar este facto, os investigadores usaram as chamadas experiências em play back. Gravavam pessoas dizendo “Olá! Olá, lindo! Quem é um bom menino? Vem cá! Muito bem! Lindo menino! Vem cá, querida!” Estas frases eram proferidas várias vezes. Era pedido à pessoa que falava para observar fotos de cachorrinhos bebés, de cães adultos ou mais velhotes, ou não eram mostradas quaisquer fotos. A análise das gravações mostrou que os voluntários mudavam a maneira como falavam com os cães de diferentes idades.

Os cientistas reproduziram então as gravações de vários cachorrinhos e cães adultos, registando o seu comportamento de resposta. E concluíram que os filhotes reagiam mais intensamente às gravações feitas, enquanto quem falava observava as imagens de cães (em linguagem direcionada aos cães). O estudo não mostrou o mesmo efeito quando se tratava de cães adultos. Mas outros estudos que registaram as reações dos cães à voz humana em interações face-to-face, incluindo o realizado na minha própria investigação, indicam que a linguagem do cão pode ser útil para comunicar com esses animais, seja qual for a sua idade.

Seguir um dedo apontado

Também foi demonstrado que podemos comunicar com esses animais através de gestos. Desde bebés, os cães reagem a gestos humanos, como o apontar, de uma maneira que outras espécies não conseguem fazer. O teste é muito simples. Ponha diante do seu cão duas taças idênticas cobrindo-as com pequenas porções de comida e certifique-se de que o animal não consegue ver o alimento e não tem nenhum tipo de informação sobre o seu conteúdo. Em seguida, aponte com o dedo para um dos dois recipientes enquanto faz contato visual com o seu cão. Ele seguirá o seu gesto para a taça que estiver a apontar e vai investigá-la com a esperança de encontrar algo debaixo dela.

A causa é que o cão entende que sua ação é uma tentativa de comunicação. Isso é fascinante porque parece que nem mesmo os chimpanzés, que são os nossos parentes vivos mais próximos, entendem a tentativa de comunicação dos humanos nessa situação. Nem mesmo os lobos – os parentes vivos mais próximos aos cães – mesmo que tenham sido criados exatamente como estes num ambiente humano.

Isso levou a pensar que, na realidade, as habilidades e o comportamento dos cães neste campo são adaptações ao ambiente humano. Ou seja, viver em contato próximo com os seres humanos há mais de 30 mil anos levou a que os cães desenvolvessem habilidades comunicativas iguais às das crianças.

No entanto, há diferenças significativas entre a maneira como os cães compreendem a nossa comunicação e como a mesma informação é entendida pelas crianças. De acordo com a teoria, ao contrário das crianças, os cães compreendem o gesto de apontar como uma espécie de ordem suave que lhes diz para onde ir, e não como uma forma de transmitir informações. Em vez disso, quando o gesto é feito para uma criança, ela acha que a informamos sobre algo.

Essa habilidade dos cães para reconhecer as “diretrizes espaciais” pode ser a adaptação perfeita à vida com humanos. Por exemplo, durante milhares de anos esses animais foram utilizados como uma espécie de “ferramenta social” para ajudar no pasto e na caça. Nessas ocasiões, eles deveriam ser guiados durante grandes distâncias através de instruções gestuais. O estudo mais recente confirma a ideia de que os cães não só desenvolveram a capacidade de reconhecer gestos, mas também uma sensibilidade especial à voz humana que os ajuda a distinguir quando precisam de responder ao que lhes é dito.

Juliane Kaminski é professora de psicologia na Universidade de Portsmouth, no Reino Unido.
Cláusula de divulgação: Juliane Kaminski é consultora de Dognition.
Este artigo foi publicado originalmente, em inglês, no site The Conversation.

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